Ataques em Recife - Esclarecimentos

O Dr. Fábio Hazin enviou uma carta de esclarecimento sobre a matéria vinculada na Rede Globo e enviada por esta página.

"Mais uma vez, infelizmente, a mídia aborda a questão dos ataques de tubarão em Recife de uma forma sensacionalista e desastrada..."

Mais uma vez, infelizmente, a mídia aborda a questão dos ataques de tubarão em Recife de uma forma sensacionalista e desastrada. Desde o II Workshop Internacional sobre Ataques de Tubarões, realizado em julho do ano passado, que o CEMIT- Comitê Estadual de Monitoramento dos Incidentes com Tubarões identificou o problema da poluição do Rio Jaboatão, particularmente de natureza orgânica, como um dos fatores potencialmente importantes no contexto dos ataques (e, portanto, não "a principal causa da presença dos tubarões na região"). Neste sentido, na 4a Reunião Ordinária do CEMIT, ad-hoc ao Workshop, e transcrevo aqui literalmente a ata da reunião: "ficou acertado que o CEMIT desenvolveria gestões junto ao Governo do Estado, no sentido de viabilizar recursos que permitam um diagnóstico detalhado do Estuário do Rio Jaboatão (...). Uma vez concluído o diagnóstico, poderia se partir para um projeto de recuperação do estuário".

No início de setembro de 2004, de acordo com o que havia sido acertado, o CEMIT encaminhou correspondência a vários órgãos de governo, entre eles a SECTMA (Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente) e a EMLURB (Empresa Metropolitana de Limpeza Urbana), solicitando informações sobre a carga de poluição do Rio Jaboatão, particularmente a de natureza orgânica.

Em inícios de dezembro o CEMIT recebeu um dossiê da EMLURB, a partir do qual foi possível identificar 4 fontes principais: usinas de açúcar, esgotos domésticos, chorume do lixão e matadouro de Jaboatão. O lixão e o matadouro, este último, particularmente, foi motivo de preocupação, uma vez que o relatório, datado de 2000, indicava um volume de descarga da ordem de 345 mil litros/dia, entre sangue e víceras diluídos em água, ao mesmo tempo em que há uma farta literatura indicando o forte poder de atração que estas substâncias têm para os tubarões. Tanto assim que um manual da FAO (Guidelines for Strenghtening animal health services in developing countries, 1991), por exemplo, sobre cuidados no processamento de produtos de origem animal em países em desenvolvimento, alerta que "o despejo inadequado de dejetos oriundos de matadouros pode levar a um aumento no número de tubarões na área quando o mesmo é lançado no mar". Baldridge (Shark Attack: A Program for Data Reduction and Analysis, 1974), por outro lado, alerta para o risco de ataques em áreas próximas a lixões, afirmando que: "sharks are attracted and/ or excited by such waste matter and to swim in nearby waters is possibly to court disaster". No dia 13 de janeiro, o CEMIT se reuniu (não foi possível coordenar agenda em dezembro) e imediatamente agendou com o Secretário de Defesa Social, João Braga, sob cuja Secretaria está instituído o CEMIT, uma reunião para tratar do assunto, ocorrida no dia 19 de janeiro. O próprio Secretário, durante a reunião, agendou com o Secretário Cláudio Marinho, da SECTMA, uma nova reunião, no dia 21 de janeiro, com a CPRH (Companhia Pernambucana de Recursos Hídricos). Durante a mesma, ficou acertado que a CPRH faria um levantamento detalhado dos dados relativos à poluição do Rio Jaboatão, nos últimos 20 anos, com particular atenção para o Matadouro e para o Aterro Sanitário (lixão), e que apresentaria o mesmo ao CEMIT no dia 21 de fevereiro (1 mês depois). No dia 21 de fevereiro, por um desencontro de agendas, não foi possível realizar a reunião prevista, ficando a mesma acertada para o dia 1 de março. No mesmo dia (21/02), o Projeto Praia Segura, que conhecia os encaminhamentos em curso pelo CEMIT e a preocupação do mesmo com a situação do Matadouro, fez uma denúncia à Rede Globo, ocasionando a primeira matéria (veiculada somente no jornal local: NE-TV).

A partir daí, o assunto galgou a mídia nacional, sendo veículado no Jornal da Globo. No dia 23, o CEMIT realizou a sua 9a Reunião (restrita*), ocasião na qual esperava poder avaliar os dados do CPRH, o que, conforme acima relatado, não foi, infelizmente, possível. No dia 24 de fevereiro, o CEMIT realizou a sua 10a Reunião (ampla), na qual ficou acordado que, independentemente dos dados a serem aportados pela CPRH, o CEMIT demandaria a imediata suspensão de lançamento de sangue e outros dejetos decorrentes das atividades do matadouro, no Rio Jaboatão. Nas discussões, ficou claro que a demanda do CEMIT não era pelo fechamento do matadouro, mas pela suspensão do lançamento de dejetos no rio, particularmente em função de existirem alternativas, admitidas pelo próprio matadouro, de tratamento dos dejetos, como o cozimento do sangue para transformação do mesmo em farinha.

No dia 25 de fevereiro, por fim, foi veiculado pela mídia que as autoridades estaduais e municipais estavam se mobilizando para interditar o matadouro já na próxima segunda-feira, dia 28 de fevereiro. As informações publicadas pela mídia parecem apontar uma longa história de reincidência do mesmo no descumprimento da legislação ambiental, assim como outras irregularidades de ordem legal e administrativa. Esta é a situação em que nos encontramos hoje.

Infelizmente não temos qualquer controle sobre a forma mistificada e sensacionalista com que a mídia insiste em abordar a questão do tubarão.

Só cabe a nós, através do Comitê, perseverarmos com os esforços que temos envidado, de forma responsável, séria e diligente, com o objetivo de mitigar o problema. Nesse contexto, a descontinuidade do lançamento dos dejetos do matadouro no Rio Jaboatão, assim como a redução da carga de chorume não tratado, acreditamos, constituem passos importantes na redução do risco de ataques de tubarão. Neste sentido, esperamos, também, sensibilizar o Governo do Estado para que amplie a unidade de processamento do chorume decorrente do lixão, o qual, atualmente, só consegue processar cerca da metade do que eflui do Aterro Sanitário da Muribeca.

Não temos dúvida de que a redução da poluição orgânica do Rio Jaboatão constitui uma providência de grande relevância para a mitigação do problema dos ataques, contribuindo para salvar vidas e para que ataques de tubarão deixem de ser assunto no Estado, de forma definitiva.

Atenciosamente,

Fábio Hazin

*As reuniões restritas são executivas, contando somente com os membros efetivos, enquanto as amplas são deliberativas, incluindo também os membros convidados.