Tubarões são tema de congresso

A oceanógrafa Rosangela Lessa, presidente da SBEEL.

De 29 de novembro a 3 de dezembro, especialistas em tubarões e raias do Brasil e do exterior estarão se reunindo em Recife para discutir o futuro destas espécies.

Enquanto a mídia tem como preocupação principal divulgar notícias sobre ataques de tubarões, cientistas brasileiros discutem hoje como conservá-los. Animais de grande porte, no ápice da cadeia alimentar, eles tem crescimento lento, demoram para entrar na idade adulta e têm pequena prole, o que os torna alvo fácil de extinção. “A Sociedade Brasileira para o Estudo de Elasmobrânquios (SBEEL), agrega a totalidade de pesquisadores brasileiros e um grande número de estrangeiros, que se reúnem a cada dois anos para discutir o destino destas espécies, que incluem tubarões, raias e quimeras”, afirma a presidente da entidade, a oceanógrafa professora-doutora Rosangela Lessa.

“Neste momento o assunto que mais atrai nossa atenção e consome nosso tempo é o Plano de Ações e Manejo, que vai dar contribuição para os órgãos oficiais responsáveis pela conservação e gerenciamento destes peixes”, acrescenta. Tanto tubarões como raias encontram-se ameaçados devido à sobrepesca.

Em 1982, Rosângela desenvolveu tese de doutorado sobre a raia-viola, Rhinobatos horkelii. Na época abundante na costa do Rio Grande do Sul, sofreu intensa captura, a ponto de sua exploração não ser mais viável. Hoje é considerada criticamente ameaçada pelos critérios da União Mundial para a Conservação da Natureza (IUCN).

A pesquisadora começou também a desenvolver estudos sobre a população de tubarões costeiros na Universidade Federal do Maranhão em 1983. As comparações dos dados da época com as capturas atuais indicam alterações para diversas espécies. “Estes problemas podem ser atribuídos à pesca intensa em áreas de berçário para os elasmobrânquios”, explica.

O uso de redes de emalhar agravam a situação, colocando em risco principalmente algumas espécies alvos destas pescarias, como o tubarão baía, Carcharhinus porosus e o tubarão bico-de-pato, Isogomphodon oxyrhynchus. A maior contribuição dos cientistas está na avaliação dos estoques, para melhor conservá-los. “Estes estudos estão baseados em idade e por isso temos nos dedicado, nos últimos tempos, a esses aspectos”, justifica Rosângela.

Trabalhos têm sido desenvolvidos especialmente com o tubarão noturno Carcharhinus signatus, espécie alvo da pesca no nordeste, assim como o galha-branca, Carcharhinus longimanus, tubarão azul, Prionauce glauca, e ainda o tubarão frango, Rhizoprionodon porosus.

Para a cientista, outra fonte importante de informação tem sido o Programa REVIZEE, que nos últimos cinco anos contribuiu com avaliações dos recursos vivos da Zona Econômica Exclusiva (região dentro da plataforma continental a cerca de 200 milhas da costa).

Neste trabalho estão relacionados diversos tubarões e raias que são capturados acidentalmente como: Carcharhias taurus, Squalus asper, Ginglymostoma cirratum, Aetobatus narinari, Dasyatis guttata e outros.

A contribuição dos diversos programas de pesquisa em desenvolvimento no país estará em destaque na pauta da reunião bianual da SBEEL em Recife.

Além de reunir quase todos os estudiosos brasileiros nesta área, são esperados especialistas estrangeiros, como Andrés Domingo (Direcion Nacional de Recursos Acuáticos, Uruguay), Enric Cortez (Southeast Fisheries Center, EUA), George Burgess (Florida Museum of Natural History, EUA), Roberto Menni (Consejo Nacional de Investigaciones Cientificas y Técnicas y Museo de La Plata, Argentina) e Shelley Clark (Tokio University).

Este ano o evento contará com o patrocínio de AQUALUNG; FACEPE; FINEP; O BOTICARIO; e Secretaria Especial de Pesca e Aquicultura (SEAP). A reunião, em sua quarta edição, está aberta a todos os interessados no assunto. Inscrições e maiores informações na página da SBEEL.

A organização é da SBEEL e conta com o apoio da Universidade Federal Rural de Pernambuco-UFRPE.

As fotos fazem parte do acervo da professora-doutora Rosangela Lessa, e foram gentilmente cedidas para ilustrar a matéria.

Saiba mais sobre a professora-doutora Rosângela Paula Teixeira Lessa

Trabalha com os elasmobrânquios desde 1979, quando foi orientada pelo Prof. Dr. Carolus Vooren, em seu Doutorado realizado na Universidade da Bretagne Occidentale, Brest, na França, com o Rhinobatos horkelii.

A partir de 1983, trabalhou na Universidade Federal do Maranhão onde desenvolveu seu projeto sobre a dinâmica populacional de elasmobrânquios costeiros.

Em 1989, desenvolveu seu pós-doutorado no Imperial College, London sobre a comunidade artesanal do Maranhão. Atualmente trabalha na UFRPE, lecionando "Avaliação de Recursos Pesqueiros" e também “Biologia de Peixes” como professora credenciada no Programa de Pós graduação em Biologia Animal da UFPE. Participou do Programa REVIZEE como coordenadora da Área de Dinâmica de População Avaliação de Estoques do SCORE- NE, cujos resultados estão sendo divulgados pela internet, e serão publicados como livros brevemente. A professora é pesquisadora da Categoria I do CNPq, na modalidade de Produtividade em Pesquisa.

Entre os diversos trabalhos publicados destaca especialmente os estudos de idade e crescimento de tubarões e raias e a contribuição ao conhecimento da biodiversidade de Chondrichthyes do Brasil realizado em 1999, disponível no site da BDT.

Ainda para ampliar o conhecimento sobre biodiversidade de elasmobrânquios, está sendo publicado no próximo número da Enviromental Biology of fishes a descrição de uma espécie nova de profundidade chamada Dipturus vooreni (Rincón & Lessa, 2004). Presidente da SBEEL (2002-2004), sociedade que reúne praticamente todos os especialistas brasileiros desse grupo, bem como um número significativo de pesquisadores estrangeiros.

Em 2000, iniciou a cooperação com o "Institut de Recherche pour lê Developlement-IRD" antigo ORSTOM, do governo francês, até pelo menos 2005. Consultora da CAPES no Comitê de Ciências Biológicas (2001 a 2005).

Atualmente orienta sete alunos entre mestrado e doutorado; do seu laboratório participam outros três recém doutores, que com ela são responsáveis pela orientação de 29 estagiários.

Apoio:


Rhinobatos horkelii, raia-viola.
Isogomphodon oxyrhynchus, tubarão bico-de-pato.
Carcharhinus signatus, tubarão noturno.
Carcharhias taurus, tubarão touro.
Squalus asper, tubarão de profundidade.
Ginglymostoma cirratum, tubarão lixa.
Aetobatus narinari, raia sapo.
Dasyatis guttata, raia ou arraia.