Caça aos caçadores

O governo pernambucano monta expedições polêmicas para matar tubarões assassinos nas praias – mas só pega espécies inofensivas
MARCO BAHÉ

Numa atitude ao estilo dos personagens do filme Tubarão, o governo do Estado de Pernambuco e empresários do setor turístico decidiram financiar expedições de caça a tubarões considerados assassinos, que têm feito vítimas no litoral do Recife. Para isso, um barco equipado com espinhel de 4 quilômetros de extensão e 100 anzóis vem tentando fisgar exemplares das espécies tigre e cabeça-chata, apontadas por especialistas como responsáveis pelos incidentes. Apesar da sanha de justiça, nas investidas realizadas na semana passada apenas inofensivas raias e tubarões flamengo e lixa (que só comem crustáceos e moluscos) foram capturados pelos vigilantes. A expectativa das expedições, promovidas pelo Comitê de Monitoramento e Prevenção de Incidentes com Tubarões, criado em maio, é matar espécies perigosas e devolver ao mar as que não apresentam riscos ao homem. Mas nem sempre isso é possível. Os oito tubarões flamengo pescados na primeira saída do barco Sinuelo, por exemplo, não resistiram à violenta fisgada do espinhel.

Reportagem do site: www.epoca.com.br

Desde que começaram a ser registrados sistemáticos ataques de tubarão nas praias da região metropolitana do Recife, há 12 anos, foram 44 incidentes, 16 mortes e dezenas de mutilações. Apesar do saldo sangrento, as expedições de caça ao tubarão dividem a população e o poder público. O governo do Estado deixou de lado a Secretaria Estadual de Meio Ambiente e delegou a tarefa à Secretaria de Defesa Social. 'Acreditamos que os sucessivos ataques tenham sido realizados por um único elemento', disse o secretário João Braga, em coletiva à imprensa, utilizando-se do jargão policial ao defender a caçada. Já a procuradora federal da República, Sônia Macieira, notificou o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e a Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) para que prestem esclarecimentos. 'Sabemos que as espécies capturadas até agora não são as mesmas que causam os ataques. Vamos avaliar se isso pode provocar um desequilíbrio no ecossistema', afirma a procuradora.

As expedições pretendem capturar 150 tubarões, inclusive 10 das espécies tigre e cabeça-chata, considerados os mais perigosos

Professor da UFRPE e um dos principais especialistas em tubarão no país, Fábio Hazin defende as expedições pelo caráter científico. Segundo ele, os equipamentos instalados no barco Sinuelo poderão dar informações importantes sobre a oceanografia local. Além disso, os animais sacrificados ajudarão na pesquisa de hábitos reprodutivos e alimentares das espécies. 'A captura de cabeças-chatas ou tigres funcionará apenas como efeito colateral positivo, diminuindo a incidência de ataques', argumenta. O Sinuelo deverá realizar duas expedições por mês. A embarcação arrastará o espinhel pelos 20 quilômetros compreendidos entre as praias do Paiva e do Pina, na região metropolitana do Recife. É nesse trecho que ocorrem todos os ataques. Não há registros em outras praias, como Porto de Galinhas.

Polêmicas à parte, nenhuma medida de caráter estrutural foi anunciada para atenuar uma das mais prováveis causas dos ataques: o desequilíbrio ambiental. Estudos demonstram que a chegada dos tubarões às regiões mais próximas à praia foi resultado da destruição de estuários, aterro de manguezais e até desvio do curso de rios. Essas alterações teriam reduzido a oferta de peixes e obrigado os tubarões a chegar mais perto da arrebentação para se alimentar. A construção do Porto de Suape, a cerca de 30 quilômetros do Recife, é tida como um dos vilões.

O barco sai nos períodos de lua cheia e nova, quando a maré alta traz mais ataques

A boa notícia, por enquanto, pode vir de uma idéia de pesquisadores da cidade de Bezerros. Denominado de Floats Shields Praias Seguras, o projeto consiste na instalação de um cinturão de bóias emissoras de ondas eletromagnéticas ao longo do litoral recifense. As bóias espantam os tubarões, que possuem órgãos sensoriais de orientação, as chamadas ampolas de Lorenzini, extremamente sensíveis às ondas eletromagnéticas. Se um deles se avizinha das bóias, sofre convulsões. Elas são versões amplificadas do Shark Shield, equipamento individual australiano utilizado com sucesso por surfistas e já importado para uso de salva-vidas no Recife. Ecologicamente correto, ele não causa ferimentos no peixe e nem sequer é percebido por outras espécies da fauna marinha. 'O princípio teórico do projeto está correto. Resta saber se vai funcionar na prática e em condições severas, como no mar', diz o presidente da ONG Instituto de Pesquisa e Preservação Ambiental Oceanário, Alexandre Carvalho.

COMO SÃO AS EXPEDIÇÕES
A orientação é matar os tubarões perigosos
e preservar os 'inocentes'
TUBARÃO-TIGRE
Galeocerdo cuvier
Pode chegar a 7 metros de comprimento e 900 quilos. A maioria tem de 3 a 4,5 metros. Vive em áreas costeiras

TUBARÃO CABEÇA-CHATA
Carcharhinus leucas
Alcança, no máximo, 3,5 metros e 370 quilos. É uma das espécies mais combativas e nervosas de tubarão
TUBARÃO FLAMENGO
Carcharhinus acronotus
Também chamado de cação flamengo, não passa de 2 metros de comprimento. Não é considerado agressivo
O barco dos caçadores é equipado com um espinhel. Trata-se de um cabo de aço de 4 quilômetros de comprimento, sustentado por bóias. Ao longo dele, pendem 100 iscas com peixes-prego. Nas próximas expedições, o espinhel deverá ser de 8 quilômetros, com 200 iscas